terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A RUA




Cassiano Ricardo

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,apenas,esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

TENHO CERTEZA QUE

“Aquilo que é bom, e de verdade, e forte, e importante - coisa ou pessoa - na sua vida, isso não se perde.”




Do sempre nosso,

Caio Fernando Abreu

sábado, 20 de novembro de 2010

CRISE DE ROMANCITE





Apenas Mais Uma De Amor
Lulu Santos
Composição: Lulu Santos / Nelson Motta

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer

Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fugaz

É uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
E eu vou sobreviver...
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

23




O RELÓGIO
Cassiano Ricardo

Diante de coisa tão doída
Conservemo-nos serenos

Cada minuto de vida
Nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.


Feliz 04 de novembro!!!!!!
"Recuso-me a falar sobre isso… afinal de contas 'mentiras sinceras me interessam'."

domingo, 24 de outubro de 2010

TU VENS... TU VENS...



Com o passar dos anos a gente passa a sentir na pele o que as pessoas chamam de "TORNAR-SE ADULTO". E, na maioria das vezes, isso significa uma coisa ruim. Às vezes tornar-se adulto significa perder as ilusões, não construir expectativas, esperar sempre o pior para que o sofrimento seja menor, deixar de acreditar em contos de fadas e, principalmente em príncipes encantados, o que siginifica deixar de acreditar no amor.

E assim vivemos... Cheio de espinhos, mantendo uma posição de defesa para que os outros não se aproximem muito, que nós não as amemos muito e não soframos muito.. Somos pouco felizes para sermos pouco tristes depois...

Porém algumas pessoas ainda acreditam, porque alguns conseguem guardar em si a doce capacidade infantil de saber que tudo vai dar certo e que para ser feliz é preciso pouco. Essas pessoas ainda cultivam dentro de si uma semente de esperança, talvez fraca, rala, pois já foi pisada por outras pessoas, mas ela ainda vive. Eu, que sou "adulta", mulher-moderna-que-trabalha-e-estuda e está se preparando para ser do tipo independente que prefere estar só do que mal acompanhada, guardo dentro de mim uma menina romântica que quer um príncipe encantado e um feliz para sempre. Espero alguém que me traga mil e uma possibilidades coloridas, que me mostre que o amor existe e que traz felicidade, alguém que se divida comigo e aceite uma metade de mim para ele. Que sejamos cúmplices, amigos, que cuidemos um do outro...

Este final de semana fui assitir ao show do Victor e Léo. Recentemente eles regravaram a música ANUNCIAÇÃO, do Alceu Valença. Adoro essa música. Ela faz com que aquela sementinha se torne revigorada. Dentre tantas intepretações que existem para essa música eu fico com aquela que diz que ela fala sobre o anúncio de um amor verdadeiro que está chegando. Acreditando nisso esta menina romântica cantarola assim:


Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

Música: Anunciação
Composição: Alceu Valença

Vídeo no you tube: http://www.youtube.com/watch?v=nUNHOvD0JNU&feature=player_embedded

domingo, 17 de outubro de 2010

AMIGOS...



O meu professor de literatura um dia me disse o seguinte: "Durante nossa vida, passamos por vários lutos. Perdemos várias pessoas e nem sempre as perdemos para a morte."

A cada dia que passa percebo o quanto ele estava certo. Pessoas que nos são tão queridas e que se vão simplesmente... Às vezes perdemos o contato com elas, às vezes brigamos, às vezes acontecem mal entendidos ridículos que as fazem ir e é horrível. Eu já passei por vários lutos desse tipo e me lembro da dor que cada um deles provocou em mim.

Eu, que tenho poucos amigos, rezo todos os dias por eles e pela amizade que nos une. Rezo para que eles nunca se percam de mim e nem eu me perca deles. Eles fazem parte do que eu sou. São corresponsáveis pelos meus momentos de alegria e pelo êxito das minhas ações.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

VEJA BEM, MEU BEM

Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo

Veja bem, meu bem
Sinto te informar que arranjei alguém
pra me confortar.
Este alguém está quando você sai
E eu só posso crer, pois sem ter você
nestes braços tais.

Veja bem, amor.
Onde está você?
Somos no papel, mas não no viver.
Viajar sem mim, me deixar assim.
Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.

Enquanto isso, navegando vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

E eu nunca vou te esquecer amor,
Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.

Veja bem além destes fatos vis.
Saiba, traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém
chamado "Saudade'.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

HOJE HÁ CHUVA E UM POUCO DE FRIO





Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes. (...) A cada dia viver me esmaga com mais força.



Do sempre nosso, Caio.

domingo, 12 de setembro de 2010

MINHAS LÁGRIMAS

Eu tenho vivido dias estranhos. Nada de demasiadamente ruim está acontecendo, mas mesmo tendo coisas boas para poder aproveitar eu perco o sono e choro. Tenho sentido um sofrimento ruim, não sei bem o que é, só sei que quase desespero, mas não sei por quê. Tenho passado meus dias como se minha vida estivesse dentro de uma ampulheta e eu a visse passar e acabar, acabar, acabar... É tudo muito lento, mas não para por nem um minuto, entende? Nunca tive problemas para dormir e ultimamente tenho percebido que a noite é muito longa e eu vejo o dia clarear. Vejo começar mais um dia no qual eu não farei nada que marcará minha memória. Sabe, eu sou capaz de certas coisas que eu não quis fazer. E é justamente isso que me revolta. Se eu sei o que me deixa feliz porque eu não faço? Se eu não prejudico ninguém, porque determinadas pessoas não entendem minhas vontades? Mas, ao mesmo tempo, deixar quem a gente ama feliz não é uma forma de sermos felizes também? Será que alguma coisa, nisso tudo, faz sentido? O que eu sei é que eu não quero viver em branca nuvem, quero pintar um arco-iris com minhas memórias boas e aprender cada vez mais com meus próprios erros. A vida é sempre um risco e eu tenho medo do perigo, mas eu preciso enfrentar. Do contrário, a areia da ampulheta vai acabar de cair e eu terei várias páginas com tinta preta e branca. Lágrimas e chuva molham o vidro da janela. Muitas lágrimas nos últimos dias, mas ninguém me vê. O mundo é muito injusto e eu dou plantão nos meus problemas que eu quero esquecer. Eu fico remoendo tudo isso que me incomoda. É como se eu estivesse vivendo em modo standy-by. Nada acontece. Eu fico mergulhada em literatura e solidão. Fico achando tudo muito sem sentido falta alguma coisa, falta alguém! Será que existe alguém ou algum motivo importante que justifique a vida ou pelo menos este instante de angústia? Apesar dos pesares eu não perco as esperanças, eu vou contando as horas e fico ouvindo passos, na expectativa que alguém chegue e traga um sorriso de presente para mim. Não sei explicar direito qual é o estado das coisas aqui do lado de dentro. Só sei que preciso tentar aproveitar o tempo que ainda tenho e tentar sair do sinal amarelo e voltar para o verde. Só não sei o que vai acontecer quando eu conseguir isso Quem sabe o fim da história de mil e uma noites de suspense no meu quarto?



P.S.: Texto escrito a partir da música Lágrimas e Chuva, do Leoni.

sábado, 11 de setembro de 2010

OLHA SÓ...

Menina-moça, tentaram me fazer acreditar que o amor não existe e que sonhos estão fora de moda. Cavaram um buraco bem fundo e tentaram enterrar todos os meus desejos, um a um, como fizeram com os deles. Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos. Em construir castelos sem pensar nos ventos. Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim. A manter meu buquê de sorrisos no rosto, sem perder a vontade de antes. Porque aprendi com a Dona Chica, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parado. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim. O destino da felicidade, me foi traçado no berço. Disse um certo pai Ogum.

Do sempre nosso, Caio F.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

SOU BOLO SEM CEREJA


Nestes dias de feriado prolongado eu, que fiquei no modo standy-by, totalmente dedicada ao nada, tive muito tempo para assistir televisão. Dizem por aí que os atuais programas de televisão são excessivamente de má qualidade e fazem com que as pessoas parem de pensar. Meu Deus, comigo acontece exatamente o contrário: a má qualidade me faz pensar em mil coisas. E é sobre uma delas que vou falar agora. Ao ligar a televisão o que se vê? Um bando de gente junto: homens com um sorriso sem graça, mulheres praticamente nuas e uma banda que há anos toca a mesma música ridícula. Nem preciso dizer qual é o programa ou o canal porque, afinal, todos são a mesma coisa!

Mas uma coisa é interessante: os homens estão sempre com um visual básico: calça e camisa! Roupas que poderiam ser usadas tranquilamente em qualquer lugar que eles fossem! E as mulheres? Estão, cada vez mais com visual de praia. Shorts curtíssimos, decotes enormes e a barriga sempre à mostra ou, vestidinhos hiper justos no bumbum e elas ficam ajeitando a saia toda hora em um fingimento de pudor quando, na verdade,não passa de desconforto.

Não pensem que eu sou uma pessoa careta com excessos de pudores e tradicionalismos imbecis. Não, pelo contrário: como boa escorpiana, sou a favor da sensualidade. Mas não acho que uma mulher que fica saculejando a bunda em frente um camera seja sensual. A sensualidade está no que é sugerido, e não no que é escancarado. Uma saia de fenda é muito mais sensual que uma minissaia rodada. As mulheres mundialmente conhecidas por sua sensualidade são as que menos exibem seu corpo por aí.



Não estou dizendo que existe uma postura certa e uma errada e que eu sou detentora do melhor de todos os comportamentos. Acredito, que a verdade seja apenas uma questão de ponto de vista e não se pode julgar o livro pela capa. Pode ser que muitas dessas mulheres, fora do programa de televisão, se dediquem ao estudo, à leitura ou alguma atividade que a torne uma pessoa interessante. Não estou dizendo o que é certo e o que é errado, estou apenas abordando dois lados da mesma moeda e dizendo com qual dos dois eu fico. Atualmente, a mídia só aborda esse lado comida da mulher (mulher fruta, mulher filé, etc.) como se fóssemos feitas para sermos consumidas! Literalmente. Isso passa noite e dia na televisão. As mulheres estão disponíveis na internet, em cartazes e onde mais for lucrativo. E qual a consequência disso? Nós, mulheres comuns, somos engolidas pelo mundo, como se fossémos obrigadas a ser desse jeito que nos desenham. Quem disse que precisamos ser assim? De repente, me mostram um mundo no qual eu só posso ser feliz se eu comprar um short curto, colocar silicone e aprender a dançar funk? Não é bem assim, não!!!!

Para sermos felizes precisamos estar realizadas. E o que realiza o ser humano são demonstrações de afeto, amor, carinho e respeito. E não precisamos mostrar 96% do nosso corpo para conseguir isso. Definitivamente não acho que peito, bunda e coxa sejam sensuais. Sensual é personalidade, carater, bom humor e inteligência. Mulheres, temos que ser interessantes! Isso é o mais importante! Vaidade é importante, claro! Mas não é o essencial. Cuide-se bem, faça academia, compre alguns cremes anticelulite e use uma blusinha mais decotada de vez em quando. Faça como eu: usufrua dos benefícios de um batom vermelho! Isso tudo é complemento. É um algo a mais. A cereja do bolo, entende? Se tiver de escolher entre ser interessante e ser sexy escolha a primeira opção. Afinal, seja sincera: você prefere uma cereja sem bolo ou bolo sem cereja?

domingo, 29 de agosto de 2010

NINGUÉM


Ninguém

Tati Bernardi

Sapato baixo, calça larga e cabelo preso. Esquentou e seus ombros tensos agradecem. Que cara bonita é essa? Já logo no elevador. Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonita hoje. Um fala, outro concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é? Que segredo ela guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? No estacionamento perguntam: voltou com alguém? No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo “nossa, você tá muito... é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir”. Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis pink ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho. Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, estudo, yoga, massagem, dormir, bobeiras, pilates, comer, rir, cabelo, filmes, comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que a ocupa de ser ela e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Linda, ela segue. Linda e feliz como nunca. O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinha, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ela pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que a espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento.

sábado, 28 de agosto de 2010

COM VOCÊS, LEONI!

ALICE NÃO ME ESCREVA AQUELA CARTA DE AMOR
Leoni

Tantos sonhos morrem
Em poucas palavras
Um bilhete curto
E já não há nada
Alice, não se esqueça
Do nosso amor
Será que eu tenho sempre
Que te lembrar?
Todo dia, toda hora
Eu te imploro
Por favor

Alice não me escreva
Aquela carta de amor

Sempre tive medo
Das suas idéias
Por que você precisa
Ser tão sincera?
Alice, eu tô treinando
Pra te enfrentar
Tenho mil motivos pra
Você me suportar
Fica mais uma semana
Nesse tempo a gente engana

Alice não me escreva
Aquela carta de amor

Todo mundo sabe de alguma coisa que eu não sei
De um filme que eu não vi
De uma aula que eu faltei
Por mais que eu tente eu nunca chego no horário
Eu perco tudo que eu ponho no armário

Tudo atrapalha o que eu faço
Mas pros outros parece tão fácil

A fila que eu escolho vai sempre andar mais devagar
E o troco acaba bem na hora em que eu vou pagar
Se eu me distraio um único instante
Pode apostar que eu perco o mais importante

Tudo atrapalha o que eu faço
Mas pros outros parece tão fácil

Os vizinhos devem rir por trás do jornal
Eu desconfio de um complô
O maior que já se armou
Uma conspiração internacional

Os vizinhos devem rir por trás do jornal
Eu desconfio de um complô
O maior que já se armou
Uma conspiração internacional

Alice não me escreva
Aquela carta de amor

quinta-feira, 26 de agosto de 2010




A quem interessar, possa: Carta para além do muro, do sempre nosso Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

RIFA-SE


Clarice Lispector

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

VAI PASSAR

CAIO FERNADO ABREU

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …

terça-feira, 13 de julho de 2010

QUEM SOU EU

Preencher o QUEM SOU EU, dos site dos quais participo é uma tarefa muito difícil, mas não desisto de tentar. Então, vamos lá:

Sou uma pessoa normal: algumas qualidades, alguns defeitos. Umas atitudes boas outras más, tenho algns amigos e uns inimigos. Um pouquinho de cada coisa, entende? Ops! Desculpe. Falar da gente mesmo é sempre difícil. Vamos ver: sou apaixonada pela minha família. Tenho poucos amigos e eles são ótimos. Amo sorvete, coca-cola e sanduíche. Como bem e durmo melhor ainda. Odeio gatos. Adoro criança. Não gosto de gente séria e retraída, que espera as coisas acontecerem. Gosto de gente que brinca, que ri, que grita e que sabe conversar com o corpo todo. Detesto briga, mas, se for preciso entrar em uma, tenha certeza que eu vou dar conta do recado! Nunca faço promessas e nem construo expectativas. O mal nunca me surpreende. Invisto poucas esperanças nos seres humanos. Tenho muito orgulho de todas as minhas ações bem sucedidas. As pessoas vêem isso como presunção, eu vejo como consciência tranquila comigo mesma. Estive por muito tempo sozinha, embora quase nunca estivesse solteira. Hoje, não tenho mais me sentido sozinha, mesmo tendo preferido ficar solteira. Sou metida, exigente e consigo ser muito fria. As pessoas tem de mim exatamente aquilo que conquistam. Não paro de estudar por nenhum um dia. Adoro dançar, mas detesto boate. Não preciso beber para me soltar. Faço e falo somente o que o meu coração pede. A razão vem depois. Sou bem sincera e nem um pouco medrosa. Só faço as perguntas quando estou preparada para ouvir as respostas. Sei que fantasmas não existem, mas eu tenho medo. Não acredito em prícipes encantados, mas espero pelo meu todos os dias.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ORAÇÃO DA SERENIDADE

Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma da outra – vivendo um dia de cada vez, desfrutando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a paz, considerando o mundo pecador como ele é, e não como gostaria que ele fosse, confiando em Deus para endireitar todas as coisas para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e sumamente feliz contigo na eternidade.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

EU...

...Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.

Clarice Lispector

segunda-feira, 5 de julho de 2010

SIM, QUE PELO MENOS SEJA DOCE

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.


Do sempre nosso,


Caio

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Estou passando um daqueles dias tensos em que parece que meu coração vai sair pela boca. É uma mistura de tristeza, raiva e dor. Me sinto excluída por determinadas pessoas que diziam que sempre estariam comigo e não me sinto amada por alguns que me juraram amor eterno. Nesse turbilhão, tão conhecido pelo meu coração, só tem um pessoa que não me deixa por nenhum segundo sequer: eu mesma! Ai, e como é difícil ficar me ouvindo dando conselhos para mim mesma e me cobrando por atitudes que eu própria me havia proibido tomar. Essa cobrança é a mais dura de todas. Eu me resigno e me obedeço porque preciso controlar a mim mesma.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CLAUFE RODRIGUES

No dia 23 de maio estive na Bienal do Livro. Motivada pela presença da escritora Fernanda Mello, acompanhei a apresentação que acontecia na Arena Jovem e, além de cumprir o objetivo inicial (conhecer a Fernanda), tive a oportunidade de conhecer o escritor Claufe Rodrigues que me encantou. Tenho pesquisado mais sobre ele e, com certeza, ele já está na minha lista de favoritos. Conheçam!





O DONO DO TEMPO

CLAUFE RODRIGUES

Vejo beleza em tudo o que vejo
Porque sou poeta e me alimento do que é belo
Ante meus olhos
Baleias viram sereias
Sirenes tocam sinos
Tenho a alma de um menino
Que ainda está para nascer.
Sou o dono do meu tempo
Mas de repente vem um vento e eeeê...

Vejo beleza nos casais que se amaram para sempre
E porque não, vejo beleza nos amantes de ocasião,
Verão vermelho na eternidade cinza.
Vejo beleza na flor e no espinho,
Na água e no vinho,
Na derrota e na vitória.
Vejo beleza na Marina e na Glória, de mãos dadas ao entardecer.
Sou o dono do meu tempo
Mas de repente vem um vento e eeeê...

Vejo beleza nas ruas secundárias,
Mais do que nas avenidas principais.
Vejo beleza nos velhos caminhando nas praças,
Nas meninas comendo pizza nos shoppings,
Até no motorista que avança os sinais,
Enquanto os pedestres passam apressados,
Prestes a enlouquecer.
Sou o dono do meu tempo
Mas de repente vem um vento e eeeê...

Vejo beleza no mínimo e no máximo,
No desperdício e no básico,
No popular e no clássico,
Na música e no barulho,
No vício e na virtude.
Vejo beleza até quando não vejo,
Quando beleza é só o desejo de ver.
Sou o dono do meu tempo
Mas de repente vem um vento e eeeê...


POESIA NÃO DÁ CAMISA

Se todas as mulheres do mundo

tivessem 1/3 do teu perfume

Deus morreria de ciúmes dos homens,

porque não haveria mais eternidade, paraíso,

essas paisagens do amanhã.

Existiria apenas o teu sorriso de hortelã,

refrescando a minha boca

encharcada de saliva.



Poesia não dá camisa,

mas o poeta, quando tem uma musa,

não precisa de blusa

vive de brisa.

terça-feira, 25 de maio de 2010

“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto mas, se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada."

C.F.A.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

PRESENTE DE AMIGO

Conheci hoje esse poema. Ele me foi apresentado por um amigo novinho em folha!


Não Quero
Mário Quintana

Não quero alguém que morra de amor por mim… Só preciso de alguém que
viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim… Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível… E que esse momento será inesquecível… Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo…

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe… Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…

Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros… Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim… e que valeu a pena!

domingo, 16 de maio de 2010

NADA DE NEURAS




Estou numa fase totalmente tranquila. Absolutamente sem neuras. Dúvidas, inseguranças e arrependimentos são palavras que estão sendo apagadas do meu dicionário por falta de uso.

Não me preocupo mais com problemas que são dos outros e não faço tempestades em copo d'água. Não me preocupo com quem não se preocupa. E não morro de amores por ninguém. Nem de ódio! Porque os dois sentimentos, de igual maneira, nos suga muito quando é intenso demais.

Isso não significa que estou procurando o equilíbrio das coisas. Não. Bem que eu queria, mas equilíbrio é uma palavra que não está no meu dicionário por causa da minha terrível falta de habilidade com ela. Continuo extrema, intensa. Estou em uma fase que talvez se possa chamar de egoísta. Estou correpondendo extremamente e sem nenhum arrependimento ou pudor àquilo que me dão. As pessoa tem de mim exatamente aquilo que conquistam.

Optei pelo não sofrimento. Essa decisão tem influenciado não só no relacionamento com outras pessoas, mas também no meu dia-a-dia. Man! I feel like a woman, da Shania Twain e Rosas, da Ana Carolina tem sido a trilha sonora dos meus dias. Deixei o Leoni um pouquinho de lado e tenho ouvido Lady Gaga, Britney Spears, Madonna e qualquer outra coisa que me deixe com vontade de dançar. Larguei de vez a chapinha! Assumi minhas ondas volumosas e me entreguei irreversivelmente ao chocolate. Tenho a maior naturalidade em transitar entre o tênis e o scarpin. Porque roupa, para mim, não é questão de estilo e, sim, de humor e intenções. Não abro mão do meu esmalte e do meu batom: vermelhos, sempre. Tenho me maquiado muito, mas acho que é pelo frio. Maquiagem combina com frio...

Estou sendo eu mesma, sem precisar da permissão de ninguém para isso.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

APRESENTAÇÃO

Texto de Martha Medeiros

"Sou eu que começo? Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu anti socialismo interno.
Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.
Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas diante de qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei onde vão parar minhas idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se.
Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também."

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O MAIS DIFÍCIL PARA MIM

VINTE QUATRO HORAS POR DIA
Texto de Ana Jácamo

Tentar manter um relacionamento gentil, pacífico, amoroso, comigo mesma, antes de qualquer outra coisa, é uma necessidade: convivo comigo vinte e quatro horas todo santo dia, há muitos anos. E a tendência é que isso prossiga exatamente dessa maneira, sem perspectiva de mudança, pelo menos até que se encerre a temporada. Onde quer que eu vá, eu me levo, com ou sem vontade. Não importa o que eu faça, estou junto, inseparável. Com ou sem outra companhia, eu me acompanho. Quando todos vão embora, quando as luzes se apagam, quando cada dia vai dormir, quando cada novo dia acorda, eu permaneço. Mesmo quando durmo, o enredo dos meus sonhos, de uma forma e de outras, fala de mim, vê se pode! Ainda que, de vez em quando, nos períodos inevitáveis de cansaço da convivência, eu tente escapar desse contato por meio de algum disfarce, conhecido ou inédito, não demora muito eu me encontro novamente. Não tem jeito.

Toda vez que me tornei insuportável para mim, eu me meti numa encrenca das grandes. É muito complicado passar tanto tempo na companhia de alguém que nos incomoda. De alguém que a gente não está conseguindo olhar nos olhos. De alguém cuja voz nos irrita. De alguém com quem não conseguimos permanecer em silêncio, até onde o silêncio é viável. De alguém cuja presença faz o nosso coração recuar. É por isso também que eu insisto tanto em investir nessa relação. É maravilhoso contar com a presença das pessoas que eu amo, mas, antes de tudo, estar comigo, com ou sem elas, precisa ser minimamente confortável, apesar de toda instabilidade climática e da possibilidade de chuvas ocasionais e trovoadas no decorrer do período. Precisa ter a maior qualidade de leveza que eu consiga. E, na medida do possível, precisa ser divertido. Afinal, não é pouca coisa: são vinte e quatro horas, ininterruptas, por dia. Só dá pra levar bem se rolar afeto, como diz um amigo meu. Só dá pra levar bem se existir, um pouco que seja, de amor, ele que, a gente sabe, é capaz de coisas incríveis. Muito mais do que um luxo, aprender a conviver melhor comigo é uma prioridade, diariamente atualizada.

domingo, 9 de maio de 2010

DE MIM

Cuida de Mim
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

Pra falar verdade, às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer as vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
Tanto faz não satisfaz o que preciso
Além do mais, quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou;
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto finjo, enquanto fujo.

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor, do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás, se voltar atrás assim como eu.

Busquei quem sou
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo, enquanto finjo.

terça-feira, 4 de maio de 2010




íQué bueno sería se pudierámos dibujar un mundo nuestro donde pusiéramos todas las personas que nos gustan! En ese mundo no existiría el dolor, no existiría pérdidas, ni añorazas. Las distancias y las ocupaciones no serían capazes de alejar un del otro. Un mundo en que todos serian felizes.

Pero eso no es posible. No podemos hacer con que las personas que nos gustan dejen de sufrir.

Pero no somos títeres del destino. Tenemos el control de nuestra vida y podemos ser fuente de felicidad a los otros. Sí, no podemos cambiar el mundo, pero podemos hacer nuestro mundo mejor y más bonito. No podemos alejar el dolor de nosotros mismos ni de las otras personas, pero podemos estar juntos a ellas cuando necesitan. Podemos construir juntos una historia de vida que sea bonita a pesar de sus momentos tristes. Tenemos que hacer con que miramos nuestra vida y que, mismo viendo llanto, dolor y decepciones, veamos también superación, aprendizado, amistad y amor.


sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. Acho graça onde não há sentido. Acho lindo o que não é. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona o fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, o mundo continua rodando, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, existem coisas que não precisam ser explicadas. (Pelo menos para mim).
O que importa é o que faz os meus olhos brilharem, o coração bater forte, o sorriso saltar da cara. Eu acho que as pessoas são sempre grandes e às vezes pequenas, igual brinquedo Playmobil. Enxergo o mundo sempre lindo e às vezes cinza, mas para isso existem o lápis-de-cor e o amor que a gente aprendeu em casa desde cedo. Lembra?
Tenho um coração maior do que eu, nunca sei minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).
Coragem eu tenho um monte. Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo de filme de terror, tenho medo das pessoas, tenho medo de mim. Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos entram e saem, nunca sei aonde fui parar. Mas uma coisa eu digo: eu não páro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei aonde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre pergunto se você está feliz, se eu estou linda, se eu vou ganhar estrelinha, se eu posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim, se o café ficou forte demais. Eu sou assim. Nada de meias-palavras. Já mudei, já aprendi, já fiquei de castigo, já levei ocorrência, já preguei chiclete debaixo da carteira da sala de aula, mas palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força.
Sou menina levada, princesa de rua, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu... Beijo escondido, faço bico, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Amo e invento. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Sem censura. Sem pudor. Quer me entender? Não precisa. Quer me amar? Me dê um chocolate, um bilhete, um brinde que você ganhou e não gostou, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Criança não liga pra preço, não liga pra laço de fita e cartão de relevo. Criança gosta de beijo, abraço e surpresa!

Texto de Fernanda Mello

segunda-feira, 3 de maio de 2010

AMAVISSE

Hilda Hilst

Se chegarem as gentes, diga que vivo o meu avesso.
Que há um vivaz escarlate
Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes
Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes
Sobre os pés. Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra

Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas
Contornando o meu quarto de fundo sem começo.
Que a mulher parecia adequada numa noite de antes
E amanheceu como se vivesse sob as águas. Crispada.
Flutissonante.

Diga-lhes principalmente
Que há um oco fulgente num todo escancarado.
E um negrume de traço nas paredes de cal
Onde a mulher-avesso se meteu.

Que ela não está neste domingo à tarde, apropriada.
E que tomou algália
E gritou às galinhas que falou com Deus.

AMAVISSE

de Hilda Hilst



Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro



Um arco-íris de ar em águas profundas.



Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.



Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010






Oração do pássaro
Frei Betto

Senhor, tornai-me louco, irremediavelmente louco
Como os poetas sem palavras para os seus poemas,
As mulheres possuídas pelo amor proibido,
Os suicidas repletos de coragem perante o medo de viver,
Os amantes que fazem do corpo a explosão da alma.

Dai-me, Senhor, o dom fascinante da loucura
Impregnado na face miserável do pobre de Assis,
Contido nos filmes dionisíacos de Fellini,
Resplandecente nas telas policrômicas de Van Gogh,
Presente na luta inglória de Lampião.

Quero a loucura explosiva, sem a amargura
Da razão ética das pessoas saciadas à noite pela TV,
Da satisfação dos funcionários fabricantes de relatórios,
Dos deveres dos padres vazios de amor,
Dos discursos políticos cegos ao futuro.

Fazei de mim, Senhor, um louco
Embriagado pelo vosso amor,
Marginalizado do rol dos homens sérios,
Para poder aprender a ciência do povo
Em núpcias com a Cruz que só a Fé entende
Como um louco a outro louco.



Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante


Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.

Martha Medeiros



Não tenho culpa se meus dias têm nascido completamente coloridos. Simplesmente quando acordo decido que quero ser feliz,mas alguns ainda cismam em querer borrar minhas cores.

Martha Medeiros



"Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé- não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre."

C.F.A

quarta-feira, 28 de abril de 2010

QUAL A RAZÃO DA SUA VIDA?

Outro dia me chamaram de mulher poderosa. Achei engraçado. Sempre imaginei que uma mulher poderosa fosse uma mulher segura e decidida. Eu não me encaixo nesses quesitos. Essa manhã me chamaram de madura. Ah, isso eu realmente queria ser. Na hora desconversei, fingindo que eu realmente era, mas era modesta demais para admitir. Mas não! Eu não sou. Sou insegura, sou ciumenta, sou exigente, sou implicante. Enfim, características que não combinam com maturidade e nem com o poder feminino.

Mas eu não tenho só defeitos, não. Aliás, estou cheia de falar só dos meus defeitos. Também tenho qualidade. Eu sou bem humorada, sou divertida e não há mal que me faça perder isso. Não minto nunca. Detesto ficar reclamando pelos cantos. Resmungar? Choramingar? Jamais. Luto para realizar meus sonhos, gosto de trabalhar, de estudar. Respeito as pessoas, planto o bem e, principalmente, amo, amo muito, amo demais certas pessoas. E por elas, sofro, choro, luto e vivo cada dia.

São essas pessoas que me movem, que me fazer querer escolher o melhor caminho, que me faz pensar que está aqui nessa vida pode ser maravilhoso. Eu realmente me importo com elas e felicidade de cada um deles se torna minha felicidade também. Todos precisam de pessoas assim na vida. O carinho, o amor, a amizade faz com que a gente queira lutar por um mundo melhor, onde as pessoas sejam melhores e por isso, mais felizes.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

OS ÚLTIMOS DIAS

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Que a terra há de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre o papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instate
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um
torso de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas;
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entrentanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena amplo fulgurante, facho lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mell dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, revolta e sono, adeus,
adeus, vida aos outros legada.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

EU, MODO DE USAR

MARTHA MEDEIROS

(TEXTO COM MODIFICAÇÕES)

Pode invadir ou chegar com delicadeza,
mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ...
permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos
e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades,
conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas
e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando
este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer,
sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,
um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras,
elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e,
não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada.
( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça,
gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado,
você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.
Escolha um papel para você que ainda não
tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa,
uma louca que ache graça em tudo que rime com louca:
loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,
apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto, NUNCA olhe para outras mulheres,
tenha amigos, *mas não digam muitas bobagens juntos.
*Me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
*Fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte! *E me ame sempre!!!!

segunda-feira, 22 de março de 2010

SE EU FOSSE...

Se eu fosse um mês, eu seria novembro.
Se eu fosse um dia da semana, eu seria sexta-feira.
Se eu fosse uma hora do dia, eu seria 8 da manhã.
Se eu fosse uma direção, eu seria aquela com o caminho mais torto e mais bonito.
Se eu fosse um esporte, eu seria Bungee jumping.
Se eu fosse um divertimento, eu seria um encontro de amigos.
Se eu fosse um gesto, eu seria um beijo.
Se eu fosse um momento, eu seria aquele que faz perder o folêgo.
Se eu fosse um líquido, eu seria a tequila.
Se eu fosse uma pedra preciosa, eu seria a granada.
Se eu fosse uma árvore, eu seria o ipê.
Se eu fosse uma flor, eu seria a rosa.
Se eu fosse um instrumento musical, eu seria um saxofone.
Se eu fosse uma cor, eu seria o vermelho.
Se eu fosse um sentimento, eu seria a paixão.
Se eu fosse um tempero, eu seria a pimenta.
Se eu fosse um animal, eu seria uma onça.
Se eu fosse uma fruta, eu seria o abacaxi.
Se eu fosse um livro, eu seria escrita por Caio Fernando Abreu.
Se eu fosse uma personagem, eu seria a menina com uma flor de Vinicius.
Se eu fosse uma comida, eu seria sorvete.
Se eu fosse um lugar, eu seria uma Serra.
Se eu fosse um objeto, eu seria um avião.
Se eu fosse um filme, eu seria "A vida é bela"

EU TE RESPONDO: SIM

De uns tempos para cá o interior dela está muito agitado. Aliás seu interior sempre foi agitado, porém o que até então era só o desassossego de quem vive nos extremos, agora é a movimentação de quem sente nos extremos. Nessas horas é que ela queria ter a aptidão de Clarice, ou de Caio para transformar em palavras aquele aperto que estava ali do lado de dentro. Essa seria uma ótima forma de aliviar seu coração dessa sensação de amor. Sim: amor. Desses amores fortes que não conseguem esperar e que já nasceu grande demais. Como não tinha o dom para a escrita que serve de alívio, tinha que conseguir fazer cara de serenidade enquanto sentia o coração socando seu peito querendo deixar aquele lugar, onde reinava sentimentos agitados, para pousar perto do outro coração que o havia conquistado. E como era ruim segurar tudo dentro. Precisava estar com ele, sentir os beijos, os abraços e as pequenas primeiras carícias de amor. Não deixava de pensar nem um só segundo naquela frase do Caio: "Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa.. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio, trovão fazendo barulho.. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." Sim, essa frase relatava tudo. Inclusive o desejo que ela tinha de ser chuva na vida daquele que estava lhe chovendo. "-O que fazer com tantos sentimentos fortes?" "-É preciso aliviar, é preciso sair de dentro de você mesma, senão você explode". Sim, é preciso expressar. Mas não adianta, coisas do tipo:"eu gosto de estar com você", "você é importante para mim", etc. etc. etc. Isso não alivia o peito de uma escorpiana. É preciso mais para te satisfazer. É preciso ordenar as sete certas letras. Um dia desses ela, como uma grande escritora, vai reinventar o melhor texto já produzido e vai dizer: eu te amo, amor!

quinta-feira, 18 de março de 2010

IRREMEDIAVELMENTE DO MEU JEITO

Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida,pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.Não estou aqui pra que gostem de mim.Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que sou.

De Maria de Queiroz: "Irremediável"

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DE MIM PARA MIM MESMA






Incapacidade de Amar
Composição: Cazuza / Leoni

Vai embora, não
Fica mais
Homem nenhum do mundo
Vai te dar tanto carinho
Homem nenhum, nem mulher, nem pai, nem mãe
Homem nenhum
Vai aturar a tua loucura

A tua cabaça dura
Que só eu sei tem cura
Que só eu mesmo pra desculpar
Por tanta incapacidade de amar

A mim e a você
Pensa bem
Homem nenhum do mundo vai ter tanta paciência
Homem nenhum, nem pai, nem mãe
Nem a ciência
Vê se entende
Pára e pensa

Outra pessoa pode
Tirar você do bode
Mas só eu mesmo pra desculpar
Por tanta incapacidade de amar

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MÁGICO, POÉTICO E INTELIGENTE



Para Uma Menina Com Uma Flor
Vinicius de Moraes


Para uma Menina com uma Flor

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino,
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta,
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

EM RITMO DE CARNAVAL II




Com Que Roupa?
Noel Rosa
Composição: Noel Rosa

Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru.....ta, pra poder me
reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Agora, eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro não
é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapacei.....ro, não consigo ter nem pra gastar
Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo
desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar
ficando nu
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me
convidou?

EM RITMO DE CARNAVAL



As Rosas Não Falam
Cartola
Composição: Cartola

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Lágrimas e chuva

Composição: Leoni / Bruno Fortunato / George Israel

Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê

A noite é muito longa,
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer.
Será que alguma coisa,
Nisso tudo, faz sentido?
A vida é sempre um risco,
Eu tenho medo do perigo.

Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão nos meus problemas
Que eu quero esquecer

Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos este instante

Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto

Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê
Não sei por quê

A noite é muito longa
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer
Quis fazer
Será que existe alguém no mundo?

Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites de suspense no meu quarto
No meu quarto....

domingo, 7 de fevereiro de 2010

LAS PERSONAS QUE ME GUSTAN

Primero que todo

Me gusta la gente que vibra, que no hay que empujarla, que no hay que decirle que haga las cosas, sino que sabe lo que hay que hacer y que lo hace en menos tiempo de lo esperado.

Me gusta la gente con capacidad para medir las consecuencias de sus acciones, la gente que no deja las soluciones al azar.

Me gusta la gente estricta con su gente y consigo misma, pero que no pierda de vista que somos humanos y nos podemos equivocar.

Me gusta la gente que piensa que el trabajo en equipo, entre amigos, produce más que los caóticos esfuerzos individuales.

Me gusta la gente que sabe la importancia de la alegría.

Me gusta la gente sincera y franca, capaz de oponerse con argumentos serenos y razonables.

Me gusta la gente de criterio, la que no se avergüenza de reconocer que no sabe algo o que se equivocó.

Me gusta la gente que al aceptar sus errores, se esfuerza genuinamente por no volver a cometerlos.

Me gusta la gente capaz de criticarme constructivamente y de frente; a éstos los llamo mis amigos.

Me gusta la gente fiel y persistente, que no fallece cuando de alcanzar objetivos e ideas se trata.

Me gusta la gente que trabaja por resultados. Con gente como esa, me comprometo a lo que sea, ya que con haber tenido esa gente a mi lado me doy por bien retribuido.

Mario Benedetti

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

VEM, LUA!

Se Ele Apenas

Diz a lenda que o poeta
Li Po
afogou-se na noite em que
embriagado
quis agarrar a Lua
sobre o lago.
É lenda, bem se vê.
Pois a verdade é que
a Lua
teria seguido o poeta
a qualquer canto
se ele apenas a tivesse chamado.


In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

JÁ CONSIGO RESPIRAR MELHOR


PIEDRITAS EN LA VENTANA
Maria Benedetti



De vez en cuando la alegría
tira piedritas contra mi ventana
quiere avisarme que está ahí esperando
pero me siento calmo
casi diría ecuánime
voy a guardar la angustia en un escondite
y luego a tenderme cara al techo
que es una posición gallarda y cómoda
para filtrar noticias y creerlas

quién sabe dónde quedan mis próximas huellas
ni cuándo mi historia va a ser computada
quién sabe qué consejos voy a inventar aún
y qué atajo hallaré para no seguirlos

está bien no jugaré al desahucio
no tatuaré el recuerdo con olvidos
mucho queda por decir y callar
y también quedan uvas para llenar la boca

está bien me doy por persuadido
que la alegría no tire más piedritas
abriré la ventana
abriré la ventana.

sábado, 2 de janeiro de 2010

PRATODODIA

O Teatro Mágico
Composição: Danilo Souza

Como arroz e feijão,
é feita de grão em grão
Nossa felicidade

Como arroz e feijão
A perfeita combinação
Soma de duas metades

Como feijão e arroz
que só se encontram depois de abandonar a embalagem
Mas como entender que os dois
Por serem feijão e arroz
Se encontram só de passagem

Me jogo da panela
Pra nela eu me perder
Me sirvo a vontade, que vontade de te ver

O dia do prato chegou é quando eu encontro você
Nem me lembro o que foi diferente!
Mas assim como veio acabou e quando eu penso em você
Choro café e você chora leite

Choro café e você chora leite

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

QUER TEM UM NOVO ANO?

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Camille Claudel: vítima do amor

Camille Claudel (1864-1943) foi aprendiz de August Rodin. Rodin ficou impressionado com o talento de Camile. Camille abandonou sua família não pela sua arte e sim pelo amor de Rodin. Essa paixão consumiu seu universo emocional. Camile se deixou levar pela paranóia. Profissionalmente, vivia a sombra de seu mestre e sentimentalmente, vivia como amante de Rodin que não aceitava se separar de sua companheira. Camille Claudel morreu no manicômio aos 79 anos de idade.


"A valsa" de Camille Claudel