terça-feira, 25 de maio de 2010

“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto mas, se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada."

C.F.A.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

PRESENTE DE AMIGO

Conheci hoje esse poema. Ele me foi apresentado por um amigo novinho em folha!


Não Quero
Mário Quintana

Não quero alguém que morra de amor por mim… Só preciso de alguém que
viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim… Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível… E que esse momento será inesquecível… Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo…

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe… Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…

Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros… Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim… e que valeu a pena!

domingo, 16 de maio de 2010

NADA DE NEURAS




Estou numa fase totalmente tranquila. Absolutamente sem neuras. Dúvidas, inseguranças e arrependimentos são palavras que estão sendo apagadas do meu dicionário por falta de uso.

Não me preocupo mais com problemas que são dos outros e não faço tempestades em copo d'água. Não me preocupo com quem não se preocupa. E não morro de amores por ninguém. Nem de ódio! Porque os dois sentimentos, de igual maneira, nos suga muito quando é intenso demais.

Isso não significa que estou procurando o equilíbrio das coisas. Não. Bem que eu queria, mas equilíbrio é uma palavra que não está no meu dicionário por causa da minha terrível falta de habilidade com ela. Continuo extrema, intensa. Estou em uma fase que talvez se possa chamar de egoísta. Estou correpondendo extremamente e sem nenhum arrependimento ou pudor àquilo que me dão. As pessoa tem de mim exatamente aquilo que conquistam.

Optei pelo não sofrimento. Essa decisão tem influenciado não só no relacionamento com outras pessoas, mas também no meu dia-a-dia. Man! I feel like a woman, da Shania Twain e Rosas, da Ana Carolina tem sido a trilha sonora dos meus dias. Deixei o Leoni um pouquinho de lado e tenho ouvido Lady Gaga, Britney Spears, Madonna e qualquer outra coisa que me deixe com vontade de dançar. Larguei de vez a chapinha! Assumi minhas ondas volumosas e me entreguei irreversivelmente ao chocolate. Tenho a maior naturalidade em transitar entre o tênis e o scarpin. Porque roupa, para mim, não é questão de estilo e, sim, de humor e intenções. Não abro mão do meu esmalte e do meu batom: vermelhos, sempre. Tenho me maquiado muito, mas acho que é pelo frio. Maquiagem combina com frio...

Estou sendo eu mesma, sem precisar da permissão de ninguém para isso.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

APRESENTAÇÃO

Texto de Martha Medeiros

"Sou eu que começo? Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu anti socialismo interno.
Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa, impulsiva e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.
Tenho um cérebro masculino, como lhe disse, mas isso não interfere na minha sexualidade, que é bem ortodoxa. Já o coração sempre foi gelatinoso, me deixa com as pernas frouxas diante de qualquer um que me convide para um chope. Faz eu dizer tudo ao contrário do que penso: nessas horas não sei onde vão parar minhas idéias viris. Afino a voz, uso cinta-liga, faço strip-tease. Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se.
Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também."

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O MAIS DIFÍCIL PARA MIM

VINTE QUATRO HORAS POR DIA
Texto de Ana Jácamo

Tentar manter um relacionamento gentil, pacífico, amoroso, comigo mesma, antes de qualquer outra coisa, é uma necessidade: convivo comigo vinte e quatro horas todo santo dia, há muitos anos. E a tendência é que isso prossiga exatamente dessa maneira, sem perspectiva de mudança, pelo menos até que se encerre a temporada. Onde quer que eu vá, eu me levo, com ou sem vontade. Não importa o que eu faça, estou junto, inseparável. Com ou sem outra companhia, eu me acompanho. Quando todos vão embora, quando as luzes se apagam, quando cada dia vai dormir, quando cada novo dia acorda, eu permaneço. Mesmo quando durmo, o enredo dos meus sonhos, de uma forma e de outras, fala de mim, vê se pode! Ainda que, de vez em quando, nos períodos inevitáveis de cansaço da convivência, eu tente escapar desse contato por meio de algum disfarce, conhecido ou inédito, não demora muito eu me encontro novamente. Não tem jeito.

Toda vez que me tornei insuportável para mim, eu me meti numa encrenca das grandes. É muito complicado passar tanto tempo na companhia de alguém que nos incomoda. De alguém que a gente não está conseguindo olhar nos olhos. De alguém cuja voz nos irrita. De alguém com quem não conseguimos permanecer em silêncio, até onde o silêncio é viável. De alguém cuja presença faz o nosso coração recuar. É por isso também que eu insisto tanto em investir nessa relação. É maravilhoso contar com a presença das pessoas que eu amo, mas, antes de tudo, estar comigo, com ou sem elas, precisa ser minimamente confortável, apesar de toda instabilidade climática e da possibilidade de chuvas ocasionais e trovoadas no decorrer do período. Precisa ter a maior qualidade de leveza que eu consiga. E, na medida do possível, precisa ser divertido. Afinal, não é pouca coisa: são vinte e quatro horas, ininterruptas, por dia. Só dá pra levar bem se rolar afeto, como diz um amigo meu. Só dá pra levar bem se existir, um pouco que seja, de amor, ele que, a gente sabe, é capaz de coisas incríveis. Muito mais do que um luxo, aprender a conviver melhor comigo é uma prioridade, diariamente atualizada.

domingo, 9 de maio de 2010

DE MIM

Cuida de Mim
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

Pra falar verdade, às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer as vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
Tanto faz não satisfaz o que preciso
Além do mais, quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou;
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto finjo, enquanto fujo.

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor, do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás, se voltar atrás assim como eu.

Busquei quem sou
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo, enquanto finjo.

terça-feira, 4 de maio de 2010




íQué bueno sería se pudierámos dibujar un mundo nuestro donde pusiéramos todas las personas que nos gustan! En ese mundo no existiría el dolor, no existiría pérdidas, ni añorazas. Las distancias y las ocupaciones no serían capazes de alejar un del otro. Un mundo en que todos serian felizes.

Pero eso no es posible. No podemos hacer con que las personas que nos gustan dejen de sufrir.

Pero no somos títeres del destino. Tenemos el control de nuestra vida y podemos ser fuente de felicidad a los otros. Sí, no podemos cambiar el mundo, pero podemos hacer nuestro mundo mejor y más bonito. No podemos alejar el dolor de nosotros mismos ni de las otras personas, pero podemos estar juntos a ellas cuando necesitan. Podemos construir juntos una historia de vida que sea bonita a pesar de sus momentos tristes. Tenemos que hacer con que miramos nuestra vida y que, mismo viendo llanto, dolor y decepciones, veamos también superación, aprendizado, amistad y amor.


sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. Acho graça onde não há sentido. Acho lindo o que não é. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona o fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, o mundo continua rodando, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, existem coisas que não precisam ser explicadas. (Pelo menos para mim).
O que importa é o que faz os meus olhos brilharem, o coração bater forte, o sorriso saltar da cara. Eu acho que as pessoas são sempre grandes e às vezes pequenas, igual brinquedo Playmobil. Enxergo o mundo sempre lindo e às vezes cinza, mas para isso existem o lápis-de-cor e o amor que a gente aprendeu em casa desde cedo. Lembra?
Tenho um coração maior do que eu, nunca sei minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).
Coragem eu tenho um monte. Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo de filme de terror, tenho medo das pessoas, tenho medo de mim. Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos entram e saem, nunca sei aonde fui parar. Mas uma coisa eu digo: eu não páro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei aonde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre pergunto se você está feliz, se eu estou linda, se eu vou ganhar estrelinha, se eu posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim, se o café ficou forte demais. Eu sou assim. Nada de meias-palavras. Já mudei, já aprendi, já fiquei de castigo, já levei ocorrência, já preguei chiclete debaixo da carteira da sala de aula, mas palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força.
Sou menina levada, princesa de rua, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu... Beijo escondido, faço bico, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Amo e invento. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Sem censura. Sem pudor. Quer me entender? Não precisa. Quer me amar? Me dê um chocolate, um bilhete, um brinde que você ganhou e não gostou, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Criança não liga pra preço, não liga pra laço de fita e cartão de relevo. Criança gosta de beijo, abraço e surpresa!

Texto de Fernanda Mello

segunda-feira, 3 de maio de 2010

AMAVISSE

Hilda Hilst

Se chegarem as gentes, diga que vivo o meu avesso.
Que há um vivaz escarlate
Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes
Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes
Sobre os pés. Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra

Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas
Contornando o meu quarto de fundo sem começo.
Que a mulher parecia adequada numa noite de antes
E amanheceu como se vivesse sob as águas. Crispada.
Flutissonante.

Diga-lhes principalmente
Que há um oco fulgente num todo escancarado.
E um negrume de traço nas paredes de cal
Onde a mulher-avesso se meteu.

Que ela não está neste domingo à tarde, apropriada.
E que tomou algália
E gritou às galinhas que falou com Deus.

AMAVISSE

de Hilda Hilst



Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro



Um arco-íris de ar em águas profundas.



Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.



Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.