sábado, 13 de dezembro de 2008

"EU FICO SUPERFELIZ QUANDO ENCONTRO UMA PESSOA TÃO CONFUSA QUANTO EU"





Alguns dias atrás li em um blog a seguinte frase: "Nem Freud, nem Nietzsche: só Caio Fernando Abreu me entende." Fiquei com aquela frase muito tempo na cabeça e quero, agora, parabenizar a pessoa criativíssima que definiu muito bem o que há tempos eu sentia e não conseguia formular em palavras.

Quando penso que já li o melhor de Caio Fernando Abreu, me deparo com outro texto dele que passa a ser o melhor texto que já li na minha vida. Caio é indescritível. Ele sabe transformar em palavras tudo aquilo que carregamos dentro da gente e que fica nos apertando...Ler Caio é uma chance de nos liberarmos dessas dores! Não quero com isso dividir a obra de Caio em cápsulas e vender como comprimidos que curam depressão. Não, não é isso. A obra de Caio Fernando Abreu, como toda boa literatura, ou como a arte em si, possibilita a nós, leitores, sensações únicas. Nossos sentimentos ficam mais claros, a mente mais aberta... E aí sim, os problemas interiores mal resolvidos ficam mais fáceis de serem enfrentados. Então...

Nem psicólogos, nem comprimidos: tratemo-nos com Caio Fernando Abreu.

sábado, 6 de dezembro de 2008

CHEIRO DE SAUDADE



Esta semana, conversei com alguns colegas que, como eu, vieram de outras cidades para estudar. Saber que existem outras pessoas na mesma situação que a gente e poder divir a saudade que sentimos é muito bom. Durante nossa conversa, eu disse que sentia falta até do cheiro de Caeté. Eles riram de mim, mas é verdade. Quando estamos indo para Caeté, chegando no pé da Serra já sentimos uma diferença no ar (deve ter alguma coisa a ver com a poluição daqui). É um ar frio que cheira. Cherinho de saudade...

domingo, 23 de novembro de 2008

INOCÊNCIA ...


(Ilustração de Gustave Doré)

"Chapeuzinho Vermelho e o lobo juntos na cama. O lobo é retratado com um ar um tanto ou quanto plácido. Mas a menina parece assolada por sentimentos ambivalentes poderosos, enquanto olha para o lobo descansando ao seu lado. Não faz nenhum movimento para se afastar. Parece bastante intrigada com a situação, a um tempo atraída e repelida. A combinação de sentimentos que seu rosto e corpo sugerem pode ser descrita como fascinação." (BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas.22.ed. São paulo: Paz e Terra,2008.p.244)



Esta semana, com certeza, foi uma semana de descoberta. Sabe aquelas certezas ainda infantis que a gente guarda até hoje? Pois é, desconstruiram-me uma dessas certezas. Eu que sempre tive na Chapeuzinho Vermelho, um exemplo de que não se deve desobedecer aos pais, percebo hoje que há muito mais para ser extraído dessa história. Descobri que Chapeuzinho Vermelho é uma pré-adolescentes se preparando para o início de sua vida sexual e que o lobo representa os homens sedutores.
Que coisa! Mas não é que faz sentido? Porque a capa dela é vermelha? Poderia ser branca, rosa, lilás, mas não! É vermelha!!! A cor da paixão? Da sensualidade? E porque ela dá ao lobo o endereço exato da casa da vovó? Ela queria se livrar da vovó? Ela queria que o lobo estivesse esperando por ela (na cama) quando ela chegasse? Ou foi inocência?
Sim, foi inocência! Essa mesma inocência que nós todos temos. A inocência é um escudo, palavra usada para omitir verdadeiras intenções. O tempo todo fazemos isso. Chapeuzinho Vermelho é um conto amado justamente porque é o conto mais humano: mostra as crueldades que podemos praticar, as artimanhas que maquinamos para eliminar quem nos atrapalha, a nossa falta de atitude - nem enfrentamos nem fugimos das situações - e mostra a falsa inocência que todos fingimos ter!
É...
Viva Chapeuzinho Vermelho! Viva Meu Professor de Literatura!

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro!
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

sábado, 8 de novembro de 2008

UMA HOMENAGEM AOS PROFESSORES GRAMATIQUEIROS

Grande parte dos estudantes que fazem Curso de Letras tem encontrado, durante o período de estágio, com professores tradicionalistas que trabalha incessantemente com nomenclaturas, regras e classificações gramaticais. A estes, a minha homenagem:



Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da primeira conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético
de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas
expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Paulo Leminski