segunda-feira, 26 de abril de 2010

OS ÚLTIMOS DIAS

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Que a terra há de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre o papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instate
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um
torso de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas;
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entrentanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena amplo fulgurante, facho lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mell dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, revolta e sono, adeus,
adeus, vida aos outros legada.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

EU, MODO DE USAR

MARTHA MEDEIROS

(TEXTO COM MODIFICAÇÕES)

Pode invadir ou chegar com delicadeza,
mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ...
permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos
e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades,
conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas
e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando
este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer,
sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,
um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras,
elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e,
não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada.
( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça,
gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado,
você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.
Escolha um papel para você que ainda não
tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa,
uma louca que ache graça em tudo que rime com louca:
loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,
apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto, NUNCA olhe para outras mulheres,
tenha amigos, *mas não digam muitas bobagens juntos.
*Me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
*Fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte! *E me ame sempre!!!!

segunda-feira, 22 de março de 2010

SE EU FOSSE...

Se eu fosse um mês, eu seria novembro.
Se eu fosse um dia da semana, eu seria sexta-feira.
Se eu fosse uma hora do dia, eu seria 8 da manhã.
Se eu fosse uma direção, eu seria aquela com o caminho mais torto e mais bonito.
Se eu fosse um esporte, eu seria Bungee jumping.
Se eu fosse um divertimento, eu seria um encontro de amigos.
Se eu fosse um gesto, eu seria um beijo.
Se eu fosse um momento, eu seria aquele que faz perder o folêgo.
Se eu fosse um líquido, eu seria a tequila.
Se eu fosse uma pedra preciosa, eu seria a granada.
Se eu fosse uma árvore, eu seria o ipê.
Se eu fosse uma flor, eu seria a rosa.
Se eu fosse um instrumento musical, eu seria um saxofone.
Se eu fosse uma cor, eu seria o vermelho.
Se eu fosse um sentimento, eu seria a paixão.
Se eu fosse um tempero, eu seria a pimenta.
Se eu fosse um animal, eu seria uma onça.
Se eu fosse uma fruta, eu seria o abacaxi.
Se eu fosse um livro, eu seria escrita por Caio Fernando Abreu.
Se eu fosse uma personagem, eu seria a menina com uma flor de Vinicius.
Se eu fosse uma comida, eu seria sorvete.
Se eu fosse um lugar, eu seria uma Serra.
Se eu fosse um objeto, eu seria um avião.
Se eu fosse um filme, eu seria "A vida é bela"

EU TE RESPONDO: SIM

De uns tempos para cá o interior dela está muito agitado. Aliás seu interior sempre foi agitado, porém o que até então era só o desassossego de quem vive nos extremos, agora é a movimentação de quem sente nos extremos. Nessas horas é que ela queria ter a aptidão de Clarice, ou de Caio para transformar em palavras aquele aperto que estava ali do lado de dentro. Essa seria uma ótima forma de aliviar seu coração dessa sensação de amor. Sim: amor. Desses amores fortes que não conseguem esperar e que já nasceu grande demais. Como não tinha o dom para a escrita que serve de alívio, tinha que conseguir fazer cara de serenidade enquanto sentia o coração socando seu peito querendo deixar aquele lugar, onde reinava sentimentos agitados, para pousar perto do outro coração que o havia conquistado. E como era ruim segurar tudo dentro. Precisava estar com ele, sentir os beijos, os abraços e as pequenas primeiras carícias de amor. Não deixava de pensar nem um só segundo naquela frase do Caio: "Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa.. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio, trovão fazendo barulho.. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." Sim, essa frase relatava tudo. Inclusive o desejo que ela tinha de ser chuva na vida daquele que estava lhe chovendo. "-O que fazer com tantos sentimentos fortes?" "-É preciso aliviar, é preciso sair de dentro de você mesma, senão você explode". Sim, é preciso expressar. Mas não adianta, coisas do tipo:"eu gosto de estar com você", "você é importante para mim", etc. etc. etc. Isso não alivia o peito de uma escorpiana. É preciso mais para te satisfazer. É preciso ordenar as sete certas letras. Um dia desses ela, como uma grande escritora, vai reinventar o melhor texto já produzido e vai dizer: eu te amo, amor!

quinta-feira, 18 de março de 2010

IRREMEDIAVELMENTE DO MEU JEITO

Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida,pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.Não estou aqui pra que gostem de mim.Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos,com mais ou menos ou qualquer coisa.Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,em alegrias explosivas, em olhares faiscantes,em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos.
São eles que me dão a dimensão do que sou.

De Maria de Queiroz: "Irremediável"